A Era da Exuberância

 “Eu não posso acreditar nisto!”, disse Alice.

“Não pode?”, disse a Rainha com pena.
Tente de novo: respire profundamente, e feche os seus olhos.”

Alice riu. “Não tem qualquer sentido tentar”, ela disse:
“não se pode acreditar em coisas impossíveis.”

“Eu ouso dizer que você não tem muita prática”, disse a Rainha.
“Quando eu era da sua idade, sempre praticava durante
meia hora por dia. Algumas vezes, cheguei a acreditar
em seis coisas impossíveis antes do café da manhã.”

 LEWIS CARROLL, Através do espelho.

 

Com a transferência de Neymar para o PSG, surgiram diversas manchetes acusando a transação como sendo a mais cara do futebol mundial. O empresário árabe Nasser Al-Khelaifi, digo, o clube francês, desembolsou €222 milhões para contar com o brasileiro na próxima temporada, o que corresponde a R$ 817 milhões. Dinheiro suficiente para pagar a conta de qualquer estádio construído para a copa de 2014 (salvo as obras faraônicas do Mané Garrincha, Arena Corinthians, e do Maracanã). Não parece real ou factível à vista de um torcedor de futebol comum, que vive, em média, com R$ 25 mil por ano (renda per capita brasileira). Seriam necessários trinta e dois mil seiscentos e oitenta anos de trabalho deste torcedor, sem gastar um único centavo, para juntar a derradeira quantia. Junto com as manchetes, surgiram também algumas vozes indignadas, alguns murmúrios e lamentos. Afinal de contas, é muito dinheiro para ser gasto na contratação de um jogador de futebol.

Gianluigi Buffon, em entrevista ao Gazzetta dello Sport, ironizou a possível transação afirmando: “Soa tudo como falso. Por que é que Neymar vale 220 milhões e não 600? O meu avô já dizia: se encherem demais o balão, ele vai arrebentar”. O goleiro italiano ainda completou: “Não consigo entender os parâmetros para avaliar um jogador. Tudo é muito aleatório e tudo está nas mãos de pessoas que têm mais dinheiro: hoje é 10, mas amanhã são 100”. Realmente, €222 milhões é difícil de acreditar.

Contratações milionárias não são novidades no mundo do futebol. Em maio de 1983, quando surgiram os boatos sobre a transferência de Zico para a Udinese, por US$ 4 milhões (em dólares correntes da época), a Federação italiana de futebol fez um alvoroço. Era muito dinheiro para contratar um jogador de futebol. Nenhum clube italiano jamais tinha pago uma quantia tão alta por um jogador. Frente à iminente ida do camisa 10 do Flamengo para a Udinese, a Federação italiana instituiu algumas determinações que os clubes deveriam cumprir. A mais “radical” delas era a de que os clubes deveriam demonstrar, através de seus balanços, que tinham condições financeiras de efetuar as transações. Foi dado um prazo para que a Udinese comprovasse a capacidade financeira de arcar com a transferência. O clube do norte italiano revelou que quem financiaria o negócio seria uma empresa de representações de propriedade, sediada em Londres. A operação foi muito obscura e complicada – envolvendo a justiça e a polícia italiana – e gerou uma verdadeira novela sobre o futuro do camisa 10 da Gávea. Agora com Neymar, a novela não foi diferente. O presidente do Barcelona, Josep Maria Bartomeu, questionou a concretização da transferência devido a possíveis restrições do fair-play financeiro da UEFA.

Mas o avô de Buffon, com sua história de que o balão vai inflando, me deixou com várias indagações. Quanto valem hoje os US$ 4 milhões de maio de 1983? Neymar seria responsável pela transação mais cara da história do futebol? Em termos nominais, sim. Mas em termos reais? A quantia gasta pelo PSG é muito maior do que os valores desembolsados pelo Real Madrid por Zidane ou Cristiano Ronaldo (CR7)? Gastar tal volume financeiro é uma “loucura” nunca antes vista?

Para responder a essas perguntas é preciso deflacionar os valores nominais pela taxa de inflação do período. Mas aí surge um problema, as taxas de inflação que são disponibilizadas pelos institutos de pesquisa, como o IPCA que é divulgado pelo IBGE, são calculadas olhando apenas para a variação de preços de bens de consumo. Jogadores de futebol são um produto muito diferente de bens de consumo. Além disso, a oferta de recursos no mundo do futebol evolui de maneira bastante particular. O futebol mundial está cheio de contratos televisivos e premiações que crescem estratosfericamente ano a ano. Os sheiks árabes estão abrindo seus bolsos ao mesmo tempo que se tornam fãs do esporte. Os milionários chineses, seguindo a rota dos árabes, também entraram no mercado do futebol. Centenas de empresas de diversos segmentos têm investido recursos cada vez mais vultuosos no esporte. Os clubes de futebol têm buscado novas formas de se financiar, o empréstimo bancário não é mais a única fonte de alavancagem. Vários clubes europeus já abriram capital e possuem suas ações negociadas em bolsas de valores ao redor do mundo; Manchester United, AS Roma, Juventus, Borussia Dortmund, Arsenal, entre outros. Todos esses fatos implicam em um maior volume de dinheiro para transferências, salários e estrutura esportiva. Parece claro que o futebol precisa de um outro deflator que não os índices de preços normalmente utilizados.

Paul Tomkins, em seu livro, “Pay As You Play: The True Price of Success in the Premier League Era”, traz um Transfer Price Index (TPI) para deflacionar os valores do futebol inglês de maneira mais apropriada. A ideia do autor é acompanhar a evolução do preço médio dos jogadores transacionados no futebol inglês. Sob o pressuposto de que os jogadores contratados a cada ano, em média, possuem nível técnico semelhante, o TPI de Tomkins parece uma boa medida da inflação no futebol. Você pode não concordar com o pressuposto acima, ou pode ter diversas outras críticas ao índice desenvolvido por Tomkins. Realmente o TPI – que nada mais é do que a inflação do preço médio dos atletas da Premier League – possui problemas e não está isento de críticas. Mas não se esqueça que os índices de preços divulgados pelo IBGE também estão sujeitos aos mesmos problemas que o TPI de Tomkins (o preço dos celulares aumentou por que houve uma melhora tecnológica ou é apenas o mesmo produto custando mais caro?).

Inspirado no TPI de Tomkins, eu decidi calcular o índice dele desde 1992 e trazer o preço dos jogadores a valores correntes de 2017. Como não tenho acesso à base de dados de Tomkins, eu utilizei os dados de transferências do site transfermarkt.co.uk. Utilizei a mesma metodologia do autor e tomei os mesmos cuidados na construção do índice: foram excluídos valores referentes a empréstimos, jogadores que subiram da base e jogadores que se transferiram livremente. O resultado foi um índice de preços que computa a evolução do preço médio das transações na Premier League de 1992 a 2017. Não é exatamente a série que Tomkins disponibiliza em seu livro, mas as duas séries apresentam comportamento muito semelhante; a correlação entre ambas é de 0,94. Eu comecei em 1992 pois os dados anteriores a isso são escassos. Além do mais, antes da década de 90 o futebol inglês não era tão cosmopolita como tem sido nas duas últimas décadas. Por que a Premier League? Primeiro porque o número de transações por janela de transferência é muito grande. Além disso, o volume de dinheiro movimentado na Premier League, a cada temporada, é o maior entre as ligas europeias. Equivale à soma do que é movimentado na Séria A italiana e na Bundesliga, ou às somas de La Liga, Ligue 1 francesa e Eredivise na Holanda. Enfim, escolhi a Premier League pois é o maior mercado europeu de transferências.  A janela de transferência da atual temporada, 17/18, ainda não fechou e vários negócios ainda vão ocorrer. Mas calculei a inflação desta temporada até a data de 28 de julho de 2017 (por enquanto a inflação está em 10,08% em relação à janela de transferência passada). A inflação acumulada desde 1992 até a atual temporada foi 1.717,35%. Isso é muita coisa. Muito maior do que qualquer índice de preços nos EUA ou UK. Se seu clube tivesse contratado um jogador por mil libras esterlinas em 1992, ele deveria pagar 18 mil libras nos valores de hoje. É uma taxa respeitável que faz jus a cenários hiperinflacionários; se quisermos comparar com a história do Brasil, a inflação acumulada na Premier League é quase a mesma inflação acumulada no ano de 1989 – apurada pelo IPCA –  sob o Cruzado Novo, do então presidente Sarney e do Ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega. Já no período de estabilidade de preços no Brasil, a inflação acumulada (medida pelo IPCA) desde o início do plano Real, em julho de 1994 até hoje, julho de 2017, é de 463,7%. A inflação da Premier League é quase 4 vezes a inflação medida pelo IPCA para um período semelhante. Deflacionar o valor das transferências no futebol pelos usuais índices de preços pode distorcer muito os valores a serem comparados.

O Gráfico 1 traz a evolução do preço médio das transferências e a respectiva taxa de inflação para cada temporada. Apesar da taxa de inflação apresentar uma alta variância – sete temporadas apresentaram deflação -, a média da taxa de inflação do período é de 14% ao ano. Na temporada de 92/93, o valor médio das transferências foi de £541 mil libras. Na atual janela de transferência esse preço médio está em £9,8 milhões de libras.

Gráfico 1

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A lina azul corresponde à evolução do valor médio das transferências na Premier League. A linha laranja (escala no eixo da direita) é a variação desse preço médio, e é o que nós chamamos de “inflação do futebol”. Esta inflação apresenta alta variância, e alguns poucos anos de deflação (temporadas 02/03, 06/07 e 11/12). Mas a inflação média do período é bastante alta, 14%.

 Como as transferências são da Premier League, eu me restringi a fazer comparações de jogadores que passaram por essa liga (à exceção das últimas três linhas!). Porém, se tivermos um pouco mais de boa vontade, e flexibilidade, em aceitar mais alguns pressupostos, podemos aplicar esse índice a jogadores que se transferiram entre outras ligas. Eu farei isso apenas com Neymar, que é o foco deste post, Luís Figo e Zidane. A tabela abaixo mostra as maiores transações na Premier League por temporada (salvo as últimas três linhas!).

TABELA 1

TEMPORADA JOGADOR CLUBE VALOR CORRENTE A PREÇOS DE 17/18
95/96 Andrew Cole Man Unit £8,160 £64,396
96/97 Alan Shearer Newcastle £17,850 £138,333
97/98 Graeme Le Saux Chelsea £8,930 £75,002
98/99 Dwight Yorke Man Unit £16,360 £93,386
99/00 Nicolas Anelka Real Madrid £29,750 £159,892
00/01 Marc Overmars Barcelona £34,000 £127,925
01/02 Sebastian Veron Man Unit £36,210 £111,950
02/03 Rio Ferdnand Man Unit £39,100 £138,502
03/04 David Beckham Real Madrid £31,880 £114,030
04/05 Didier Drogba Chelsea £32,730 £101,778
05/06 Michael Essien Chelsea £32,300 £101,360
06/07 Andriy Shevchenko Chelsea £36,810 £124,077
07/08 Fernando Torres Liverpool £32,300 £74,457
08/09 Robinho Man City £36,550 £77,520
09/10 Cristiano Ronaldo Real Madrid £79,900 £175,292
10/11 Fernando Torres Chelsea £49,730 £105,701
11/12 Sergio Aguero Man City £30,600 £79,238
12/13 Eden Hazard Chelsea £29,750 £70,132
13/14 Gareth Bale Real Madrid £85,850 £154,787
14/15 Luis Suarez Barcelona £69,460 £103,011
15/16 Kevin De Bruyne Man City £62,900 £89,795
16/17 Paul Pogba Man Unit £89,250 £98,246
17/18 Romelu Lukako Man Unit £72,000 £72,000
00/01 Figo Real Madrid £51,000 £191,888
01/02 Zidane Real Madrid £62,480 £193,169
17/18 Neymar PSG £198,400 £198,400

Cada jogador que aparece na tabela acima foi o responsável pela transferência mais cara daquela temporada no futebol inglês (chegando ou deixando a Inglaterra). Os valores estão em milhares de libras esterlinas. A coluna CLUBE diz respeito ao destino do jogador. A coluna VALOR CORRENTE nos dá o valor da transação a preços da época, enquanto a coluna A PREÇOS DE 17/18 traz os valores a preços de 2017. Todos os valores estão em milhares (por exemplo, o valor referente a Neymar, na última linha, é £198.400,00, ou seja, 198,4 milhões de libras esterlinas).

A Tabela 1 levanta alguns pontos interessantes. Na história das transferências da Premier League, as três contratações mais caras de times ingleses foram Rio Ferdnand, Alan Shearer e Andriy Shevchenko, por £138.5, £138.3 e £124 milhões, respectivamente. A Tabela 2 (abaixo) traz as compras feitas apenas por times ingleses em ordem decrescente. Em termos reais, o jogador mais caro do campeonato inglês foi um zagueiro.

A contratação de Alan Shearer pelo Newcastle na temporada 96/97 é ainda hoje a segunda maior contratação de um clube da Premier League. O valor de £17.8 milhões a preços correntes de 1996, corresponde a £138.3 milhões na temporada de 2017. Romelu Lukako, que foi adquirido pelo Manchester United nesta janela por £72 milhões (julho de 2017), fica apenas na décima quinta colocação na lista de maiores aquisições na liga inglesa. A maior contratação da história do Manchester United, o zagueiro Rio Ferdnand, custou pouco mais de £138.5 milhões na temporada 02/03, é exatamente 49,97% acima do valor gasto na contratação de Pogba na temporada passada.

A Tabela 1 chama atenção para um jogador que era apenas uma jovem promessa na temporada 99/00. No dia 5 de maio de 1999 o Arsenal fazia um clássico com o Tottenham buscando se manter na liderança da Premier League. O segundo lugar pertencia ao Manchester United, que naquela mesma quarta-feira enfrentava o Liverpool. Logo aos 17 minutos de jogo, Emmanuel Petit abriu o placar para os gunners. Ainda aos 33 minutos da primeira etapa, em um contra-ataque rápido, Dennis Bergkamp, do círculo central do gramado do White Hart Lane, faz um passe rasteiro entre os dois defensores do Tottenham em direção ao gol. Os dois zagueiros dos spurs veem um jovem veloz, atacante dos gunners, passar por eles como um raio atrás da bola lançada. O jovem atacante deixa para trás os dois defensores e precisa de apenas dois toques na bola para colocá-la no fundo da rede, tudo isso antes que os marcadores pudessem ter percorrido sequer metade da distância percorrida pelo atacante. 0x2. O jogo terminou 1×3 em favor do Arsenal e com a primeira colocação garantida, já que o Manchester United acabou empatando em 2×2 com o Liverpool no Anfield. O rápido atacante se chamava Nicolas Anelka e aquele foi seu décimo sétimo gol na Premeire League. Uma marca impressionante para um jovem de 20 anos. A média de 0,5 gols por jogo no campeonato inglês chamou a atenção dos dirigentes dos outros gigantes europeus. A impressão que Anelka deixou naquela temporada foi tão boa, que aquele gol contra o Tottenham foi o último gol de Anelka pelo Arsenal. Dois meses depois ele foi anunciado como jogador do Real Madrid.

As transferências envolvendo Nicolas Anelka, a partir da temporada 99/00, são dignas de nota. O atacante francês movimentou muito dinheiro no mercado europeu em poucos anos. Na temporada de 96/97, Anelka foi contratado pelo Arsenal junto ao PSG por £5 milhões, a preços de 2017 (£646 mil libras em valores correntes). Na temporada 99/00, o Real Madrid tirou o francês de Londres por £159,9 milhões a preços de 2017 (ou £29,8 milhões a preços correntes). Anelka custou ao Real Madrid mais do que David Beckham ou Gareth Bale custaram ao clube nos anos seguintes. Em termos reais, Anelka valorizou-se £51,6 milhões por temporada enquanto esteve jogando pelo Arsenal. Seus 26 gols em 76 jogos pelos Gunners (média de 0,47 por partida), geraram um lucro de £154,8 milhões em termos reais. No time merengue, o francês marcou 7 gols em 32 jogos (0,22 por partida) e já na temporada seguinte foi vendido ao PSG por £110,4 milhões (£29,3 milhões em valores correntes). O Real Madrid vendeu o atacante por £49,5 milhões de euros a menos do que tinha pago por ele uma temporada antes. Dada a baixa média de gols de Anelka no Real Madrid, comparado a sua média no Arsenal, o prejuízo de £49,5 milhões parece bastante alto. Qualquer torcedor madrileño acharia um péssimo negócio, certo? Bom, se esse mesmo torcedor esperasse mais uma temporada para dar sua opinião, provavelmente ele veria o prejuízo com outros olhos (apesar da modesta média de gols, Anelka faturou a Champions League de 99/00 com a camisa merengue). Dois anos depois de chegar ao PSG (Anelka fez 0,26 gols por partida no clube francês), Anelka foi vendido ao Manchestre City por £45,6 milhões; ou seja, um prejuízo ao PSG de £64,8 milhões, em termos reais. Se o Real Madrid esperasse mais uma ou duas temporadas para vender Nicolas Anelka, supondo que seu rendimento fosse o mesmo apresentado no PSG, o prejuízo teria sido muito maior. Entre os anos de 1999 e 2002, Anelka movimentou £315,8 milhões, a preços de 2017, o que dá uma média de £78,9 milhões ao ano. Para os torcedores do Arsenal, Anelka sempre será lembrado por aquela arrancada veloz e o gol diante do rival do norte de Londres. Os torcedores do PSG provavelmente terão outras lembranças do avante francês.

TABELA 2

TEMPORADA JOGADOR CLUBE VALOR CORRENTE A PREÇOS DE 17/18
02/03 Rio Ferdnand Man Unit £39,100 £138,502
96/97 Alan Shearer Newcastle £17,850 £138,333
06/07 Andriy Shevchenko Chelsea £36,810 £124,077
01/02 Sebastian Veron Man Unit £36,210 £111,950
10/11 Fernando Torres Chelsea £49,730 £105,701
04/05 Didier Drogba Chelsea £32,730 £101,778
05/06 Michael Essien Chelsea £32,300 £101,360
16/17 Paul Pogba Man Unit £89,250 £98,246
98/99 Dwight Yorke Man Unit £16,360 £93,386
15/16 Kevin De Bruyne Man City £62,900 £89,795
11/12 Sergio Aguero Man City £30,600 £79,238
08/09 Robinho Man City £36,550 £77,520
97/98 Graeme Le Saux Chelsea £8,930 £75,002
07/08 Fernando Torres Liverpool £32,300 £74,457
17/18 Romelu Lukako Man Unit £72,000 £72,000
12/13 Eden Hazard Chelsea £29,750 £70,132
95/96 Andrew Cole Man Unit £8,160 £64,396

 

    As transferências envolvendo Anelka mereceram atenção, mas vamos voltar ao caso Neymar. Como podemos comparar as transferências de Figo e Zidane, realizadas pelo Real Madrid, com a possível transferência de Neymar para o PSG? Usando a inflação do futebol. Usei o índice de Tomkins para corrigir os valores de dois galácticos: Luís Figo e Zinedine Zidane. O primeiro foi contratado pelo Real Madrid, junto ao Barcelona na temporada 00/01, pelo valor de £51 milhões. Trazendo esse valor a preços de 2017, temos um gasto de £191.8 milhões. Valor levemente abaixo dos £193.2 milhões que o mesmo Real Madrid pagou por Zidane na temporada seguinte (ou £62,5 milhões a preços de 2001). Ou seja, o valor que o PSG pretende gastar para tornar Neymar vizinho da Torre Eiffel, é apenas 2,7% maior, em termos reais, do valor que o clube merengue abriu mão para tirar Zinedine Zidane de Turin. Portanto, Neymar se tornou o jogador mais caro do futebol desde 1992. Como não tenho dados anteriores a 1992, não é possível afirmar que ele seria o jogador mais caro da história do futebol (provavelmente, sim!). Mas as tabelas acima mostram que o esforço financeiro que o PSG realizou já foi feito antes pelo Real Madrid, pelo menos em duas oportunidades. Se tem alguém que não se espanta com os valores anunciados por Nasser Al-Khelaifi, este alguém, com certeza, é Florentino Pérez.

Cabe notar também que os £198.4 milhões ficam bem acima do segundo maior valor da tabela que é £175.3, referente a contratação de CR7 pelo Real Madrid na temporada 09/10. Neymar custou 13,18% mais do que CR7 custou ao Real Madrid.

As centenas de milhões de euros da transferência de Neymar continuam sendo muito dinheiro, em termos nominais, reais, e tanto dentro como fora do mundo do futebol. O poder de compra dos clubes aumentou exponencialmente nas últimas décadas. Por mais que os US$4 milhões gastos pela Udinese em 1983 fossem exorbitante para as transferências na Itália, até aquele momento, nem de perto esse dinheiro seria suficiente para erguer um estádio de futebol. O Hard Rock Stadium (estádio de futebol americano com capacidade para 65 mil pessoas e localizado na Flórida, casa do Miami Dolphins) foi erguido em 1985 ao custo de US$115 milhões em dólares correntes da época. É inegável o enorme crescimento do poder de compra das instituições do futebol nas últimas décadas. Mas a extravagância de Nasser Al-Khelaifi, está longe de ser uma raridade no futebol europeu. O Real Madrid já gastou quantia equivalente em duas ocasiões.

Não tenho dados confiáveis para anos anteriores a 1992. Portanto, infelizmente as comparações com os valores da transferência de Zico para a Udinese não são possíveis. Se o balão vai estourar, como profetizou o avô de Buffon, não sei dizer. Mas “Gigi” Buffon estava certo sobre uma coisa: em termos NOMINAIS, o valor das transferências no mundo do futebol, hoje são 10 e amanhã podem ser 100.

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