Anatomia dos Passes – Parte 2: Sequência de Passes.

O que as sequências de Passes revelam?

No primeiro post sobre os passes no Brasileirão (veja aqui), vimos que a correlação entre o percentual de acerto de passes e a posição na tabela de classificação (número de pontos conquistados) é positiva. Times que passam melhor a bola, provavelmente, podem criar mais chances de gol, pois a bola chega em “melhores condições” ao ataque, e, portanto, tem mais chances de ganhar as partidas. Neste post vamos verificar como as sequências de passes influenciam no jogo.

Os clubes que passam melhor a bola fazem mais gols – embora não realizem muito mais finalizações, como foi demonstrado no post anterior -, porém, o número de gols concedidos pode diminuir o número de pontos conquistados e, portanto, implicar em uma correlação baixa ou negativa entre passe e pontos conquistados. Mas para que isso seja verdade, é preciso que a correlação entre gols marcados e sofridos seja positiva. Suponha que, em média, os clubes que fazem mais gols deveriam levar mais gols também. Se isso acontecer, então o canal “gols sofridos” pode causar uma baixa correlação entre pontos conquistados e percentual de passes certos. Contudo, os dados do Brasileirão 2017 mostram que clubes que fazem MAIS gols do que a média, tendem a levar MENOS gols do que a média. A correlação entre gols marcados e gols sofridos é de -0.34. Portanto, não há evidência de que os gols sofridos sejam uma variável importante para analisar o efeito dos passes nas finalizações/gols. Portanto, não precisamos nos preocupar com os gols sofridos para analisar o efeito dos passes na performance do clubes.

O percentual de passes corretos está associado positivamente à posição na tabela. Mas para chegar no gol adversário é preciso acertar uma certa sequência de passes. Tirando o caso de passes muito longos, o que chamamos de “ligação direta”, é preciso levar a bola até o gol adversário através de uma sequência bem-sucedida de passes. Mas como se distribuem as sequencias de passes no campeonato brasileiro? A figura abaixo mostra a distribuição das sequências de passes certos no Brasileirão 2017 (atualizado até a rodada 22). Os dados consideram apenas os passes certos, as tentativas de passe malsucedidas foram excluídas. Portanto, é a distribuição de frequências em relação ao total de passes certos:

Figura 1

DIST_SEQ_PC
Distribuição de sequência de passes no Brasileirão 2017 (até a rodada 22). São sequências em relação aos passes certos. A primeira coluna nos diz que 27,55% dos passes certos estão associados a sequências de apenas 1 passe. A segunda coluna nos diz que 16,6% dos passes certos estão associados a sequências de 2 apenas passes. Assim sucessivamente.

A distribuição mostra um forte declínio nas sequências de passes à medida que aumenta o número de jogadores envolvidos. 27,47% das sequências de passes certos terminam com apenas 1 passe completo; 19,58% terminam com 2 passes; 13,34% das sequências de passes terminam com 3 passes completados; apenas 9,68% das sequências terminam com 4 passes; 7,27% terminam com 5; 5,5% terminam com 6; e apenas 17,15% das sequências de passes terminam com 7 ou mais passes (representado por 7+ na Figura 1). Sequências longas de passes são pouco frequentes, e isso não é exclusividade do campeonato brasileiro. Os campeonatos europeus apresentam uma distribuição muito semelhante. Na parte 3 destes posts sobre anatomia dos passes, será feita a comparação entre o campeonato brasileiro o inglês e o espanhol. Já adianto aqui que o padrão é semelhante.

Quando olhamos para os clubes, há uma grande diferença na distribuição de sequência de passes. A Tabela 1 traz as comparações.

Tabela 1 – dados em porcentagem (%)

Clube 1 Passe 2 Passes 3 Passes 4 Passes 5 Passes 6 Passes 7+ Passes
1 Gremio 22,05 17,16 12,81 9,80 7,70 6,03 24,45
2 Corinthians 23,57 17,83 13,00 9,67 7,49 5,98 22,45
3 Flamengo 24,06 17,71 12,76 9,80 7,66 6,07 21,95
4 Santos FC 23,36 17,73 12,95 10,12 7,97 6,36 21,51
5 Palmeiras 25,02 18,72 12,86 9,55 7,39 5,90 20,56
6 Fluminense 27,78 17,91 12,17 8,99 7,01 5,66 20,47
7 Atletico PR 23,72 19,03 13,91 10,37 8,23 6,28 18,46
8 Sao Paulo 25,20 19,28 13,85 10,16 7,67 5,81 18,03
9 Cruzeiro 25,69 19,40 13,78 10,06 7,54 5,81 17,71
10 Ponte Preta 28,13 19,66 12,99 9,68 7,25 5,42 16,88
11 Botafogo RJ 29,56 20,35 13,21 9,18 6,62 4,90 16,18
12 Sport 27,95 19,89 13,76 9,87 7,25 5,56 15,72
13 Atletico MG 27,77 20,01 13,81 10,03 7,51 5,55 15,33
14 Bahia 28,15 20,30 13,92 10,06 7,38 5,37 14,82
15 Vitoria 31,30 20,72 13,00 9,05 6,67 5,12 14,13
16 Vasco da Gama 30,65 21,49 13,66 9,55 7,21 5,00 12,43
17 Atletico GO 34,05 21,51 13,06 9,06 6,31 4,43 11,58
18 Coritiba 32,32 21,67 13,89 9,76 6,78 4,80 10,79
19 Chapecoense AF 34,52 22,74 14,02 8,97 5,97 4,09 9,69
20 Avai FC 35,13 22,22 13,89 8,99 6,45 4,21 9,11

A Tabela 1 apresenta a distribuição de passes por clubes. Os clubes estão ordenados do maior percentual de sequências de 7 ou mais passes, para o menor. O Grêmio é o clube que realiza, percentualmente, mais sequências longas de passes neste campeonato. 24,45% das sequências de passes certos da equipe gremista terminam com 7 ou mais passes. O Grêmio realiza sequências de 7 ou mais passes com mais frequência do que qualquer outra sequência menor de passes; mais até do que sequências de apenas 1 passe. Quando o clube gaúcho inicia uma troca de passes, provavelmente terminará com sete ou mais passes trocados. É uma diferença bastante grande da média do campeonato. Na média, um clube realiza uma sequência de 7 ou mais passes em 17,15% das vezes. O Grêmio realiza essa sequência longa de passes 42% mais vezes do que a média do campeonato brasileiro. O clube que vem em segundo lugar no ranking é o Corinthians, seguido pelo Santos. O Avaí é o último colocado. Apenas 9,11% das sequências de passes do Avaí terminam com 7 ou mais passes. Em 35% das vezes que o Avaí inicia uma troca de passes, ela termina com apenas 1 passe. A diferença entre o Avaí e os 4 primeiros da Tabela 1 é gritante. O Grêmio realiza, em média, 2,7 vezes mais sequências longas de passes do que o Avaí. Se em um determinado jogo, o Avaí completa 5 vezes uma sequência de 7 ou mais passes certos, o Grêmio completa 13, o Corinthians 12 e o Santos 11.

Quando olhamos a correlação entre a posição na tabela e o percentual de sequências longas de passes (7 ou mais passes), vemos que a correlação é bastante alta: 0.82. É mais alta do que a correlação entre percentual de passes certos e posição na tabela. O percentual de sequências longas de passes é um melhor previsor da posição na tabela do que o percentual de passes certos. E não é só isso. A Tabela 2 mostra as correlações entre o percentual de sequências longas de passes (SLP) e o percentual de passes certos (PC) com dados de performance: Pontos conquistados (PONTOS), Gols Marcados, Gols Sofridos e Saldo de Gols.

Tabela 2

Gols Marcados Gols Sofridos Saldo de Gols PONTOS
SLP 0,77 -0,69 0,88 0,77
PC 0,74 -0,59 0,80 0,67

Podemos ver que SLP possui maior correlação com todos os dados de performance do que percentual de passes certos. Por exemplo, pontos conquistados tem correlação de 0.77 com SLP e apenas 0.67 com PC. A Tabela 2 mostra que SLP é melhor previsor para todos os dados de performance.

Por que isso ocorre? O senso comum nos dá três hipóteses, que não são necessariamente excludentes: 1) sequências longas de passes terminam com mais finalizações do que sequências curtas. A lógica por trás disso é que se um clube troca sequências curtas de passes, dificilmente conseguirá chegar perto da área adversária para finalizar (a não ser que use muitos passes longos e lançamentos); 2) sequências longas de passes aumentam a probabilidade de marcar um gol quando geram uma finalização. A ideia é que sequências mais longas permitem finalizações mais prováveis de gol, seja porque o atacante recebe melhores passes ou porque recebe a bola em uma posição mais próxima do gol adversário; 3) realizar um grande número de sequências mais longas de passes gera mais volume de jogo no campo do adversário. Isso se traduz em mais faltas na beira da área, pênaltis, escanteios, roubadas de bola próximas do gol adversário, etc.

Vamos analisar a primeira hipótese. Sequências longas de passes podem terminar em finalizações com mais frequência do que sequências curtas? O que os dados dizem? A Figura 2 traz a distribuição de finalizações por sequências de passes.

Figura 2

DIST_FIN
Distribuição da frequência de finalizações condicional à sequência de passes.  A primeira coluna nos diz que 2,62% das sequências de apenas 1 passe terminam em uma finalização.

Vemos que sequências curtas de passe geram mais finalizações. 2,62% das sequências de passes, com apenas um passe completo, terminam em uma finalização. Essa frequência cai até 4 e depois volta a cair até 6 passes. Apenas 1,72% das sequências de 7 ou mais passes terminam em finalizações. Verificar que as sequências de apenas 1 passe são as que geram mais finalizações não é surpreendente. Esta alta frequência pode estar associada a cruzamentos na área vindos de faltas. A bola de lateral arremessada para dentro da área pode gerar uma finalização também. A Figura 2 mostra que sequências mais longas de passe não estão associadas a uma maior frequência de finalizações. Também, a correlação entre o percentual de sequências longas de passes e número de finalizações é aproximadamente zero, -0.02. Sequências longas de passes não terminam em finalizações com mais frequência do que sequências curtas. Portanto, a primeira hipótese levantada acima não se sustenta.

Vamos analisar a segunda hipótese. Sequências longas de passes geram maior probabilidade de gols do que sequências curtas? O que os dados dizem? A Figura 3 traz a distribuição de gols por sequências de passes.

Figura 3

DIST_GOL
Distribuição da frequência de gols condicional à sequência de passes. A primeira coluna nos diz que 9,32% das finalizações originadas de sequências de apenas 1 passe terminam em gols.

A Figura 3 mostra evidência contrária à segunda hipótese. Finalizações que são geradas de sequências longas de passes não são mais prováveis de se tornarem gols. Apenas 8,84% das finalizações geradas por uma sequência de 7 ou mais passes terminam em gols. Essa frequência é menor do que a frequência de gols para sequências de apenas 1 passe, que é 9,03%. Portanto, a probabilidade de uma sequência de apenas 1 passe terminar em gol é de 0,23%, enquanto que a probabilidade de uma sequência de 7 ou mais passes terminar em gol é de 0,15%, quase 40% menor. As frequências da Figura 3 são próximas e não apresentam um padrão relevante.

Vimos que sequências mais longas de passes geram MENOR probabilidade de gols. Por que isso ocorre? Sequências longas de passes não estão diretamente associadas aos gols. A relação é indireta. O que corrobora a validade da terceira hipótese.

Para deixar as coisas mais claras, vamos dar uma olhada em como os gols aconteceram neste Brasileirão (até a rodada 22). Tivemos 520 gols até o momento. Sendo 1,5% desses gols foram contra, 8,8% deles foram de pênalti, 35,3% dos gols foram feitos sem assistência de passe e 54,3% de gols foram assistidos por passe. Portanto, dos 520 gols, apenas 282 (520*0,545) foram resultado direto de finalizações geradas a partir de sequências de 1 ou mais passes. Parece pouco, mas precisamos levar em conta que muitos dos gols que foram feitos sem assistência de passes – eles somam 184 (520*0,35) – foram finalizações de rebotes do goleiro, chutes bloqueados, bolas mal afastadas pelos zagueiros, etc. Portanto, boa parte destes 184 gols feitos sem assistência, foram gerados, indiretamente, por sequências de 1 ou mais passes. A Figura 4 mostra a frequência de gols por eventos.

Figura 4

DIST_GOL_EVENTO
Distribuição de gols por evento que originou o gol. 0p significa gols originados por finalizações sem assistência de passe. 1p é referente a gols oriundos de finalizações que foram assistidas por uma sequência de apenas 1 passe. 2p é referente a gols oriundos de finalizações que foram assistidas por uma sequência de apenas 2 passes. Assim sucessivamente.

Ocorre o mesmo com as finalizações. Muitas delas não são diretamente assistidas por passes, porém, foram geradas indiretamente por sequências de 1 ou mais passes. Até agora no Brasileirão, foram realizadas 5534 finalizações. Destas, 2444 finalizações (ou seja, 44,1% do total) não foram assistidas por passes. Algumas foram faltas cobradas direto para o gol ou pênaltis cobrados. Mas uma grande maioria veio de rebotes dos goleiros, zagueiros (quando bloqueia um chute, ou passe, e a bola sobra para um atacante), ou bolas mal afastadas pelos zagueiros/goleiros. É preciso levar isso em consideração para analisar a relação entre sequência de passes e finalizações/gols. Ou seja, finalizações sem assistência de passes, mas que foram geradas a partir de sequências de passes, precisam ser levadas em consideração.

Sequências longas de passes implicam mais gols porque aumentam a quantidade de oportunidades que geram as colunas “Penalti”, “0p” e “1p” da Figura 4.

Portanto, os dados do Brasileirão mostram que clubes que conseguem trocar sequências mais longas de passes apresentam melhor performance em qualquer métrica: posição na classificação da tabela, pontos conquistados, gols marcados, gols sofridos e saldo de gols. Além disso, sequências longas de passes é um melhor previsor do que o percentual de passes certos para todas essas métricas de performance.

Por último, sequências longas de passes não aumentam o número de finalizações. Também não aumentam a frequência de gols quando geram finalizações. A probabilidade de uma sequência longa de passes terminar em um gol é menor do que a probabilidade de uma sequência curta. Apesar disso, realizar sequências longas de passes  Contudo, os dados mostram evidência de que sequências longas de passes estão associadas a maior volume de jogo no campo adversário. Elas geram mais oportunidades de gols pois aumentam indiretamente o número de finalizações. Realizar mais sequências longas de passes implica em realizar mais finalizações e gols via volume de jogo: rebotes, faltas, escanteios, roubadas de bola no campo do adversário, etc.

No próximo post sobre Anatomia dos Passes, vamos comparar os passes no campeonato brasileiro com com ligas europeias.

 

Nota: Os dados utilizados neste post são do whoscored.com. Os dados utilizados estão atualizados até a rodada 22 do Brasileirão 2017, exceto pelo jogo Grêmio x Sport. O jogo não foi realizado até esse post ser escrito.

 

 

 

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