Tempos Difíceis: Paolo Guerrero

 

Há muita discussão sobre o posicionamento de Guerrero e a queda da sua média de gols. Muitos comentaristas afirmam que o atacante tem marcado menos gols devido ao seu posicionamento: apoio no meio campo e maior movimentação, principalmente fora da área. Mas o que os números dizem? A média de gols do peruano caiu? Suas finalizações diminuíram? Ele realmente está jogando mais longe do gol? Para responde a essas perguntas analisamos os dados de Guerrero nos campeonatos brasileiros de 2013 a 2017. Os dados estão atualizados até a rodada 23.

A Tabela abaixo mostra as estatísticas do peruano considerando apenas jogos do campeonato brasileiro. OTarg = número de finalizações no gol, Goal = gols (excluindo pênalti),  Assists = número de assistências, InGoal.p = percentual de finalizações certas, Goal.p = percentual de finalizações que viraram gols, P = número de partidas jogadas (ponderado para 90 minutos), SpM = finalizações por partida, GpP = gols por partida, ApP = assistências por partida.

Tabela 1

Ano Clube OTarg Goal Assists Goal.p P SpM GpP ApP
2013 Corinthians 14 2 0 5,80% 14,18 2,39 14,11% 0,00%
2014 Corinthians 31 12 3 15,38% 27,14 2,87 44,21% 11,05%
2015 Flamengo 20 3 3 5,77% 14,73 3,53 20,36% 20,36%
2016 Flamengo 21 9 2 15,25% 20,69 2,85 43,50% 9,67%
2017 Flamengo 19 5 1 8,33% 14,47 4,15 34,56% 6,91%

 

Os melhores anos de Paolo Guerrero, no futebol brasileiro, foram 2014 e 2016, quando marcou 12 e 9 gols, respectivamente. Ambos os anos ele apresentou uma média de 0,44 gols por partida. Esse ano, Guerrero marcou, até agora (rodada 23 do Brasileirão), 5 gols, o que lhe dá uma média de 0,35 gols por partida. Um pouco abaixo da média de gols do ano passado.

Para entender melhor a diferença de gols entre cada ano, é útil olhar para os gols marcados em relação ao expected goal (xG) de cada finalização (exclui pênaltis). A Figura 1 traz essa informação ano a ano. (Sobre Expected Goal (xG), ver aqui.)

Figura 1

xG_GUERRERO01

xG_GUERRERO02

 

A análise visual da Figura acima mostra de forma bastante clara que, nos anos de 2014 e 2016, Guerrero marcou mais gols em finalizações com xG<=0.3 do que nos anos de 2013, 2015 e 2017. Em 2013 e 2015 ele não marcou nenhum gol em finalizações com xG <= 0.3. Sendo que nesses anos ele finalizou 31 vezes e 46 vezes nesta situação. Já em 2017 ele marcou apenas 5,1% das vezes em que finalizou com xG <= 0.3. Em comparação, em 2014 o peruano marcou em 9,1%, e em 2016 ele marcou em 14% das vezes em que finalizou com xG <=0.3. No Brasileirão deste ano Guerrero tem errado mais gols com xG baixo do que nos anos de 2014 e 2016. Mas é difícil gerar uma finalização com xG maior que 0.3 (cerca de 80% das finalizações dos clubes no Brasileirão deste ano possuem xG <= 0.3), como consequência, Guerrero diminuiu sua média de gols neste Brasileirão. A Tabela 2 traz os dados de xG ano a ano. Onde xG/Shot = xG por finalização, xG Acum = xG acumulado no campeonato, Diff = diferença entre o xG acumulado eo gols feitos, DM = distância média das finalizações (em metros), e ShotAssist = percentual das finalizações que são assistidas (finalizações efetuadas após receber passe dos companheiros).

Tabela 2

Ano Clube xG/Shot xG Acum Gols Diff DM ShotAssist
2013 Corinthians 0,14 4,82 2 -2,82 20,27 0,41%
2014 Corinthians 0,14 11,13 12 0,87 18,10 0,48%
2015 Flamengo 0,12 6,27 3 -3,27 18,21 0,50%
2016 Flamengo 0,1 6,16 9 2,84 15 0,66%
2017 Flamengo 0,1 6,23 5 -1,23 18,93 0,43%

 

Sem dúvida, o melhor ano de Guerrero em campeonatos brasileiros foi 2016. O atacante apresentou uma Diff de 2,84, bem acima da Diff de 2014, de 0,87, quando ainda jogava pelo Corinthians. Embora o peruano tenha marcado mais gols em 2014 e apresentado a mesma média de gols que em 2014 (0,44 por partida), em 2016 ele fez quase 3 gols a mais do que o esperado. Isso significa que embora o time do Flamengo não tenha gerado tantas chances de gol para Guerrero quanto o Corinthians gerou em 2014, Guerrero terminou o campeonato com a mesma média de gols. Ou seja, em 2016, ele foi mais eficiente do que em 2014.

Contudo, a Tabela 2 mostra que este ano o peruana está com Diff negativa de 1,23 gols. Além de diminuir a média de gols por partida ele está fazendo menos gols do que o esperado. Mas porque Guerrero está colocando menos a bola nas redes? Porque ele está finalizando de mais longe, em média. A coluna DM da Tabela 2 mostra que em 2017 Guerrero está finalizando, em média, 4 metros mais longe do que finalizou no ano passado. No seu melhor ano no futebol brasileiro, o peruano finalizava, em média, a uma distância de 15 metros. Este ano ele está finalizando de uma distância média de 18,93 metros. São 4 metros mais longe do gol do que ele costumava finalizar no ano passado. Podemos notar pela Tabela 2 que os melhores anos de Guerrero no campeonato brasileiro foram os anos em que ele finalizou mais próximo do gol: em 2014 ele finalizava a uma distância média de 18,1 metros: 15,38% de suas finalizações viravam gols. Em 2016 ele finalizava a uma distância média de 15 metros; 15,25% de suas finalizações viravam gols (veja a Tabela 1). Este ano, apenas 8,33% das finalizações de Guerrero acabam em gols.

Além disso, ficar longe da área tem feito o peruano arriscar mais chutes do que costumava fazer. Entre 2013-2016, o peruano costumava realizar, em média, 2.91 finalizações por partida. Este ano, Guerrero tem realizado, em média, 4,15 vezes por partida. Ele praticamente dobrou o número de finalizações por partida. Porém, chutando de mais longe, seu xG/Shot caiu.  A Tabela 3 traz as estatísticas do percentual de chutes do atacante por ano. Onde Shot/Total = percentual de finalizações de Guerrero em relação ao seu clube (considera apenas jogos em que o peruano está em campo), e %Shot_player = percentual de finalizações do clube envolvendo o atacante (finalizações do próprio Guerrero e finalizações que foram geradas por passes dele).

Tabela 3

Ano Clube Shot/Total %Shot_player
2013 Corinthians 17,17% 30,00%
2014 Corinthians 21,90% 35,40%
2015 Flamengo 24,30% 36,91%
2016 Flamengo 21,30% 33,93%
2017 Flamengo 31,58% 42,10%

 

Em 2017, Guerrero foi responsável direto por 31,58% das finalizações do Flamengo. Quando adicionamos finalizações que surgiram de passes dele, esse percentual sobe para 42,1%. Porém, mesmo estando envolvido em 42,1% das finalizações do Flamengo, sua média de gols e de assistências caiu. Neste ano, Guerrero está com um percentual de assistências por partida menor do que nos três anos anteriores (0,07 assistências por partida em 2017 contra 0,1, 0,2 e 0,11 nos anos de 2016, 2015 e 2014).  Jogando mais fora da área, Guerrero tem finalizado mais (proporcional ao total de finalizações do Flamengo) e tem participado mais das finalizações do clube, porém, está fazendo menos gols e seus passes estão gerando menos assistências.

Vamos olhar agora para o Valor Adicionado das finalizações de Guerrero. Considerando o modelo de xG nós podemos dizer o quanto um clube, ou jogador, fez melhor do que média do campeonato; podemos verificar se um jogador ou clube excedeu a expectativa para a média do campeonato. Então, podemos fazer o mesmo para todas as finalizações de um clube, excluindo jogadas em que Guerrero está envolvido e comparar com as finalizações do peruano. Por exemplo, se o atacante marcou 0,02 gols acima da expectativa por finalização e o resto do time marcou -0,01 gols menos do que o esperado, então o Valor Adicionado (VA) do atacante seria 0,03 gols por finalização. A Figura 2 traz o Valor Adicionado de Guerrero, por ano, em relação à sua participação ofensiva.

Figura 2

VA_GUERRERO

 

Os únicos anos em que Guerrero teve um VA maior do que zero foram em 2014 e 2016. Se calcularmos o VA para todos os jogadores do campeonato (de qualquer liga do mundo), veremos que há um retorno decrescente à medida que o jogador aumenta sua participação no percentual de finalizações. Com Guerrero não é diferente (essa regra não se aplica à Messi, veja aqui, um excelente post de Benjamin Morris do FiveThirtyEight). Além disso, os únicos dois anos de VA maior que zero correspondem a temporadas em que o peruano finalizou mais perto do gol, em média.

Os números de Guerrero sugerem que o atacante precisa estar dentro da área para fazer os gols e para gerar mais assistências. O fato é que Guerrero tem jogado mais fora da área e com isso diminuiu sua média de gols, seu percentual de assistências por jogo e sua eficiência (está com diferença entre gols e xG negativa). Os números de Guerrero no Brasileirão indicam que o atacante rende mais dentro da área, recebendo a bola perto do gol. Jogar longe da área diminui o rendimento do atacante em todas as estatísticas.

 

Obs: Os dados foram obtidos no site whoscored.com.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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